Menu
Recent Post

9 de jul de 2018


A noite estava quente e úmida, a lua estava cheia e enorme no céu. Eu estava num bar com alguns amigos, alguém ria alto numa das mesas na calçada, meus colegas falavam, comiam e bebiam sem parar. Eu estava um pouco entediado em meio àquilo tudo, nunca gostei de grupos com mais de quatro pessoas, pois eu tenho um talento de me isolar neles e ficar sobrando. Minha participação na conversa se resumia apenas em leves e significativas levantadas de sobrancelhas e alguns sorrisos sem dentes e um vasto vocabulário repleto de “hum”, “hunrum”, “han”, “sei...” e coisas do tipo. 

Na verdade, eu já estava começando a ficar tonto e para baixo por causa da bebida e aquele papo todo sobre política – ou sobre a novela das nove, eu não tenho certeza – me deixava enjoado. Eu olhava qualquer ponto na rua e meu pensamento partia para vários lugares: ruas, cidades, países diferentes. Pensava em momentos e em certas pessoas que tentava matar na minha lembrança, mas andava tão desiludido com seres humanos que minha maior preocupação naquela hora era se eu havia colocado ou não a ração para o gato.

Quando dei por mim, o assunto da roda já era outro: EU! 

Que maravilha, agora eu estava no centro de uma discussão especulativa sobre minha vida. De repente, todo o meu comportamento, minhas atitudes e rotinas estavam baseadas em teorias complexas e intricadas fazendo uma ligação cósmica entre o presente e o futuro com reflexões apocalípticas sobre fatos passados, como da vez que dei banho frio em filhotes de gatos e eles morreram afogados. Talvez essa culpa me persiga e por isso não tenha conhecido a verdadeira felicidade. 

Eu nem lembrava que tinha feito isso!

“Sério mesmo, gente? Eu fiz isso?”

“Você é muito fechado,” alguém começou a cachoeira de adjetivos e seguiu sem parar:  “é dissimulado, irritado, amargurado, inseguro, fraco, covarde, indeciso, bêbado.”

Daí, outra voz arriscou discordar:

“Você é muito entregue, verdadeiro, de bem com a vida, alegre, seguro, forte, corajoso, decidido, mas ainda assim bêbado.”

Nada daquilo fazia muito sentido, pois falavam da minha vida e nem parecia. Era legal ver aquelas pessoas que convivem comigo há tanto tempo não saberem absolutamente nada sobre mim. Quer dizer, conhecem apenas uma ou outra faceta que eu deixo aparecer de vez em quando: às vezes para esclarecer, às vezes para confundir. Me tornei mestre nisso de confundir os outros, gosto de estar cercado desse ar de mistério, deixa as pessoas loucas.

“O problema é que isso te atrai gente desnecessária,” alguém concluiu.

“Gente podre”, completou outro.

“Tipo vocês?”, perguntei, ironicamente.

(Risos)

(Eu estava falando sério)

Ao menos, você deve me entender. Imagine um livro de mistério, você começa a ler e vai descobrindo a história, os detalhes, as tramas, motivações, etc. e, dessa forma, você vai se envolvendo mais e mais a cada novo capítulo. No final, quando tudo foi revelado, a verdade escancarada e o mistério reduzido a nada, o que acontece?

“Garçom, próximo livro, por favor!”,  alguém brincou.

É sempre assim, as pessoas se aproximam de você, querem te conhecer e te descobrir. Fingem se interessar, vão te conquistando e, quando finalmente saciam a curiosidade, inflam o próprio ego por terem chegado onde ninguém mais havia chegado, se cansam e vão embora. Abandonam o livro lá.

“Sou um desses livros”.

“Você é meu livro de mistério favorito, baby", uma voz sensual sussurrou ao meu ouvido.

Quote de Reflexão Conto Cara do Espelho

Acho que por isso tenho sido muito pouco lido, tenho evitado sair da minha estante, afinal nem todo leitor está preparado para uma leitura mais densa e envolvente. Até melhor para evitar que se manche, que se amasse ou que se rasgue. Não sou um conto qualquer, não sou um romance e nem mesmo poesia. Sou um amontoado de palavras semioticamente articuladas para criar, inventar, transformar e enganar o mundo.

“Você vai colocar isso no seu blog, né?”, propôs algum ser humano.

“A vida não é um filme, você perde tempo demais criando esses mundos todos...”, parei de ouvir na primeira frase.

Me admira ver discussões alheias sobre minha vida, elas são tão ricas de detalhes e verdades dogmáticas me fazem sentir um gênio no meio de tantas mentes quadradas e fechadas. 

“E esse sorriso?! Fica andando por ai de cabeça erguida e sorrindo pra vida.... Isso irrita, sabia?”

Não... não diminuo ninguém, mas não me rebaixo. Deixo que falem, isso é divertido. O importante é que a verdadeira versão da história esteja protegida, escondida. Só para causar aquele clima noir e intrigar as pessoas com meu sorriso de lado enquanto ando por ai, com meu olhar esnobe e minha taça, brindando debochadamente. O mistério precisa ser mantido.

0

25 de jun de 2018




De tempos em tempos, eu tiro uma tarde ou uma noite livre para reorganizar minhas coisas. Dia desses, eu estava limpando meu quarto quando me deparei com uma pasta cheia de papéis de quatro e cinco anos atrás. Aquelas eram lembranças dos tempos de colégio, com provas, trabalhos, cartas de amigos e os meus primeiros textos. Também tinha outras coisas como panfletos que recebo na rua, apostilas da faculdade, pautas do trabalho e rascunhos e anotações para textos. 

A grande maioria daquilo tudo era só lixo acumulando poeira, não me acrescentava mais em nada. No fim das contas, fiz uma pilha de itens desnecessários que acumulei. Mesmo que eu quisesse, eu nunca usaria a grande maioria daquilo que guardei. Elas só estavam lá ocupando espaço e acumulando sujeira. Tive que reconhecer para mim mesmo que eu tenho essa mania de guardar esse tipo de coisa: o passado.

Ora, de vez em quando, lembrar do que aconteceu é saudável, afinal tudo é aprendizado. No entanto, guardar o que passou no coração e dar-lhe tanto espaço é bobagem. O passado é o presente que já manuseamos, já foi nosso e agora não é mais. Por isso, deve ficar onde está, pois se apegar ao passado é uma armadilha que nos impede de seguir em frente.

Sentado diante daquele monte de lixo, comecei a pensar sobre como eu acumulo as coisas, não apenas objetos, mas também todo tipo de lembranças, emoções e sentimentos. Coisas que eu não consigo deixar para trás e carrego, sem perceber, nas costas até ficar exausto e decidir fazer outra faxina. 

Eu tenho certa dificuldade em externalizar meus sentimentos, os bons e os ruins, e isso me faz mal. A escrita é uma via de escape e me ajuda a descarregar os excessos que causam tensão, mas ela não é o bastante e continuo acumulando coisas que não me fazem bem. Por isso, eu estou me policiando para não guardar papéis desnecessários nem prender sentimentos. 


Quotes de reflexão do Cara do Espelho


Já percebi que é complicado para quem não tem esse hábito, mas é libertador. O sentimento bom, quando externalizado, faz um bem sem tamanho e o ruim, descarrega toda tensão. Dessa forma, tenho praticado o exercício de guardar o que preciso e me livrar do que não acrescenta e faz mal. 


Fiz um vídeo falando sobre isso, que tal dar uma conferida? 




0

5 de jun de 2018



Lembra das fábulas que nos contavam na infância? Elas são narrativas curtas, geralmente com animais como personagens e de teor educativo. Sua principal característica é apresentar uma “moral da história” que nos faz refletir e nos ensina lições.

Tenho estudado sobre espiritualidade e crescimento pessoal e, lendo textos de ambas as áreas, percebi que, de certa forma, a vida se parece com as fábulas. As coisas acontecem e, no fim, há uma lição a ser aprendida. Mas será que conseguimos perceber essas lições?

Esse é o ponto. Tudo o que acontece em nossas vidas tem um porquê, mesmo quando são coisas ruins. No entanto, nem sempre pensamos em todos esses“porquês”para extrair aprendizado deles. 

Eu só comecei a pensar nisso há menos de dois anos quando várias coisas aconteceram comigo e pareciam se repetir de tempos em tempos. Eu não conseguia entender porque tanta “maldade da vida” comigo. Até que, primeiro, tomei baque quando aprendi que muito do meu sofrimento era resultado das expectativas que criava em relação às pessoas, aos projetos e situações. Foi quando escrevi o texto “A ilusão cria a dor”. 

Mais recentemente, durante mais um momento de turbulência na vida profissional e acadêmica, tive que me condicionar a pensar de forma positiva e não me permitir ficar mal e me entregar. Extrair o lado bom do caos.


Vivendo e aprendendo...


Viver é sinônimo de aprender. E se aprende estudando, ouvindo, observando, praticando, criando, errando, sofrendo... enfim, aprende-se VIVENDO. Ou seja, quando vivemos coisas boas, podemos extrair algo disso e, da mesma forma, quando enfrentamos dificuldades, também podemos aprender com elas.

Quote Reflexão Cara do Espelho Moral da História

Costumo ouvir amigos pedindo conselhos nos momentos difíceis e sempre digo a mesma coisa: pelo menos você pode aprender algo isso. Lembro daquela frase que diz que nada é em vão e que, se não for uma benção, é uma lição. E esse é o segredo, é assumir para si a responsabilidade da própria felicidade e procurar entender o que aconteceu, sem jogar a culpa no outro, no emprego, no horóscopo, na vida, etc. 

Você acha que aprende com as lições que a vida te dá? Você tem reconhecido seus acertos e pontos fortes? E suas falhas e fraquezas? Você consegue reconhecer o que é ou não sua culpa? 

Não existe uma fórmula, não existe um padrão. A vida é um mestre que aplica as lições e cabe a nós, os alunos, compreendê-las e aprender algo novo. 

Aprendamos!

0

29 de mai de 2018

Foto: Michaelle Santiago

Era véspera de Carnaval e eu estava num restaurante no meio de uma confraternização, quando uma moça recém-chegada ao grupo ficou horrorizada ao saber que eu não bebo. Assim que confirmou comigo, ela me olhou espantada e disse que eu era uma pessoa triste,  que não sabia me divertir e não tinha histórias para contar. No momento, pensei em dizer mil coisas (algumas indelicadas, confesso), mas me restringi a dizer que escrevo a história a minha própria maneira e o assunto morreu quando, do nada, para minha alegria ou tristeza, ela começou a cantar um desses refrões sertanejos. 

As horas passaram e, já em casa, fiquei pensando sobre aquilo. Certamente, não foi uma conversa muito longa, tampouco produtiva, mas foi o bastante para que eu fosse taxado de infeliz. E isso me preocupou, não o fato de alguém pensar que sou infeliz, mas, sim, perceber que o álcool é considerado um combustível ou, até mesmo, uma fonte para a felicidade. 

Não condeno o consumo de bebidas alcoólicas, mas acredito que é uma ideia perigosa a de que a felicidade depende de álcool ou de qualquer outra substância química. Fico incomodado quando vejo alguém pregando esse tipo de coisa sem, ao menos, calcular o impacto dessa ideia e passei um bom tempo refletindo sobre o assunto.

Estar sóbrio é sinônimo de infelicidade? Aliás, estar sóbrio e de bem consigo mesmo, é estar infeliz? Ou se sentir feliz e confortável somente com alguma quantidade de álcool correndo no sangue é a verdadeira felicidade? Dar "PT" é a única forma de ter história para contar? 

Sim, é verdade que o álcool libera substâncias que promovem o bem-estar, desperta boas sensações, mas é momentâneo. Eu já tive meus momentos alcoolizados e, definitivamente, não é tipo de história da qual eu tenha orgulho de lembrar, muito menos contar. Em outras épocas, já me fiz acreditar que escrevia mais e melhor sob efeito de vinho. E, por levar esse pensamento a sério, sem a bebida, não conseguia escrever e me sentia incapaz. Parei porque aquilo não fazia sentido para mim. Uma decisão pessoal, devidamente pensada.

Se é preciso álcool para "se libertar", só está mudando sua prisão. É como namorar alguém somente para não estar sozinho. Sabe aquela velha história de que se você não é uma boa companhia para si mesmo, ninguém mais será? Então, basicamente é isso: se você não se aguenta sóbrio, não é todo mundo que vai te aguentar ébrio. Além do mais, e depois que o efeito da bebida passa, o que resta? 


Quote Reflexão - Cara do Espelho

Não julgo se aquela moça é, ou não, feliz (embora, parecesse extremamente animada), não cabe a mim. Como também não cabe a ela, ou a quem quer que seja, julgar o que eu faço e o que deixo de fazer com meu corpo e minhas ações.

Usar o álcool como remédio ou refúgio para o que quer que seja é um caminho perigoso que prefiro não trilhar. Acho que vale a pena refletir sobre a origem dessas “necessidades”, afinal os excessos sempre escondem alguma ausência mais profunda. É importante pensar e entender nossas escolhas e atitudes para não deixar a vida passar batido.


P.S.: A dependência de álcool (alcoolismo) é considerada uma doença crônica e multifatorial pela Organização Mundial da Saúde (OMS); isso significa que diversos fatores contribuem para o seu desenvolvimento, incluindo a quantidade e frequência de uso do álcool, a condição de saúde do indivíduo e fatores genéticos, psicossociais e ambientais. Saiba mais: http://www.cisa.org.br/artigo/4010/-que-alcoolismo.php
Me siga no Instagram:

Uma publicação compartilhada por Cara do Espelho (@caradoespelho) em
0

28 de abr de 2018

Achados:

A internet nos abre um mar de possiblidades e, vira e mexe, descobrimos algo maravilhoso nela. Na tag "achados", compartilho com vocês algumas das coisas que encontrei na web. 


Vivemos a era do streaming e do consumo de mídia sob demanda. Particularmente, já não consigo me readaptar ao hábito de sentar em frente à TV e acompanhar uma transmissão, seja ela ao vivo ou gravada.

Plataformas como a Netflix, o Spotify e o próprio Youtube são as que mais utilizo e me permitem consumir conteúdo sob demanda. Isso quer dizer que tenho acesso aos conteúdos onde quando eu quiser.

Há pouco tempo, encontrei um link que me levou a um site de streaming totalmente gratuito. Trata-se da Libreflix, uma plataforma brasileira aberta e colaborativa que reúne produções audiovisuais independentes, como filmes de longa, média e curta metragem, séries e também documentários. As produções são de livre exibição e despertam reflexões.

A ferramenta não é apenas uma ótima oportunidade para quem consome, mas também para quem produz conteúdo, pois qualquer pessoa pode adicionar uma produção ao catálogo da Libreflix.



Acesse a Libreflix: https://libreflix.org/


0

4 de abr de 2018




É inegável que há fases na vida em que as coisas parecem desandar, tudo fica mais complicado, os imprevistos surgem, os entraves aparecem, alguém apronta alguma coisa conosco... Só de listar, já fico suado. Mas, por pior que seja, essa é uma característica da vida. As coisas não são fáceis mesmo e, ainda por cima, sempre tem alguém para tornar pior. 

Então, se você esbarrou num problema e as coisas não estão muito bem, sente, respire fundo e se permita sentir o que o coração mandar naquele momento. Sofrer é permitido e ficar para baixo também, mas não para sempre.

Há um tempo, enfrentei situações muito ruins devido a uma pessoa tóxica. Foram semanas de assédio moral, chantagens emocionais, descrença e desdém. A princípio, aquilo me pegou desprevenido e o choque me deixou deprimido. Sofrer injustiças é sempre terrível para qualquer pessoa e isso me causou muita dor e revolta. 


Pensei em reagir de diversas maneiras, pensei até em revidar na mesma moeda, entrar no jogo e devolver toda a toxidade que estava recebendo. No entanto, refleti um pouco mais e fiz o que costumo fazer: me dar um tempo. Esse dar um tempo consiste em me desligar um pouco, me afastar do caos e me reaproximar do meu eu. É um processo de reconexão, quase como recarregar as energias.

E, apesar de toda a ansiedade e ira que me acometem nessas horas, aprendi que é necessário parar e pensar. Sair do campo aberto de batalha, ir para a trincheira, procurar abrigo e refazer a estratégia. Costumo dizer que o silêncio tem sido meu amigo há anos e é justamente por isso. No caos, supero os ímpetos de revidar e silencio para buscar uma solução.

Foque na solução, não no problema

pedras com os dizeres sonho coragem inspiração e harmonia
Sonho, coragem, inspiração e harmonia


É essencial não focar apenas no problema e, por isso, me obrigo a buscar soluções diferentes e criativas. Problemas são obstáculos que precisam ser superados, são degraus que precisam ser subidos para se alcançar um novo patamar. 



quote cara do espelho reflexão mudança positividade


Nesse processo, para cada coisa ruim que me acontece, procuro fazer outras duas boas. Seja uma atividade prazerosa, um passeio, uma boa leitura, uma nova ideia para um projeto, um novo sonho, etc. Há sempre infinitas possibilidades e todas elas dependem de nossas escolhas, de como agimos e reagimos diante da vida. 

As respostas para nossos problemas estão dentro de nós, basta saber procurar com paciência e humildade. Não é fácil, como nada é na vida, mas nos ajuda a superar as dificuldades e expandir nossas possibilidades. 

2

Autor

autorEstudante de jornalismo, escritor preguiçoso, poeta fracassado, ligeiramente otimista, irritantemente risonho e comicamente irritado.
Leia mais →



Home Ads

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *