23 de maio de 2017

Inveja do eu lírico | Conto | Cara do Espelho


Aquela era apenas mais uma noite sem promessas, havia chovido a tarde e isso garantiu um clima ameno e melancólico àquela banda podre da cidade. O bar musical estava cheio: cheio de almas vagantes e perdidas; cheio de advogados e executivos; artistas, burocratas, filhinhos de papai, cheios de pretensão, animação, depressão...

Na minha mesa, a garrafa dava seus últimos suspiros, um olhar da mesa em frente mirava-nos insistentemente. Alguém pediu Caetano, aquela de sempre, sobre o silêncio da noite. Silêncio do qual todos dali fugiam.

Tantos eram os choros disfarçados de altas gargalhadas. Os risos vazios, sem eco, sem profundidade e sem verdade. Tantos os garotos e garotas sorrindo e dançando procurando por uma nova história, um novo conto, um novo gibi.

Tantos eram os vagabundos se tornando grandes heróis e tantos eram os heróis sem capa se tornando meros vagabundos reclamando do tédio, do vazio e das más escolhas vindas de suas próprias covardias. Brindavam as pequenas alegrias e suas grandes decepções com cerveja barata e careta num copo americano.

Outros se entregavam a inflamados papos políticos. Sobre as mesas: tempestades de ideologias, redemoinhos de discursos repetidos e trovões ruidosos ao choque de ideias. Muito show, situação, opinião.

Ali estavam despidas a alegria e a tristeza. O amor e a desilusão também estavam ali, juntos, dançando ao som qualquer tango. Uma dança para os amores proibidos, covardes, permissivos, vulgarizados e fodidos.

Mas o que me atraía mesmo era o silêncio daquele ali no canto, observando. Me olhava compartilhando o estranhamento e a admiração. Dois poetas com inveja do eu lírico.

Diogo Souza, em 16 de janeiro de 2016

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