19 de abril de 2016

Rua da Melancolia, 014 | Conto


Foto: Negative Space
A Rua B era uma rua tradicional da cidade, era comprida, porém muito estreita e tinha a fama de ser a “rua do cartório”. Durante o dia, tinha bastante movimento e o trânsito chegava a beirar o caos graças às suas pequenas proporções. A grande maioria das casas seguia a mesma arquitetura antiga, parecia até cenário de algum filme dos anos 40. A rua do cartório fazia a ligação direta entre as duas praças principais: a da igreja e a do cemitério. Portanto, aqueles dois quarteirões, o asfalto, as calçadas e as casas foram o cenário e também testemunhas de inúmeros cortejos fúnebres, de muitas despedidas e prantos inconformados.
Apesar de ser um caminho de dor – ao menos nesse aspecto –, aquela mesma rua estreita foi um caminho no mínimo interessante para mim. Antes, eu tinha a sorte de poder caminhar por ali depois da meia-noite quatro vezes por semana. Eu podia provar de sua tranquilidade, de sua beleza e dos detalhes que passam despercebidos na correria diária. Saía às 0h:00 do meu trabalho e pegava a Rua B em direção à minha casa. Naquele tempo, eu andava muito feliz, cheio de alegria e, para ser franco, verdadeiramente transbordava euforia. Tudo culpa do amor. Ah, o amor.
A Rua B era meu caminho do trabalho até o amor. Apenas três quadras nos separavam. Os cinco minutos de caminhada eram sempre muito ansiosos, mas não necessariamente apressados. O bom de estar apaixonado é andar leve, quase flutuar, olhar o céu e sorrir para as estrelas e a Lua. Aquele asfalto, as casas e as calçadas me viam falar com a rua, sorrir sozinho. Perdi a conta de quantas vezes andei por lá assim, cantarolando canções antigas.
Mas como tudo nessa vida é passageiro – inclusive a própria vida –, acabei mudando de casa e, nesse meio tempo, aquele amor se perdeu entre uma crise e outra. O encantamento deu lugar ao esgotamento. A paixão deu lugar à desilusão. E o sentimento forte e bonito que me fazia tão bem se transformou em dor e remorso, me fazendo muito mal. Foram meses de sofrimento, nunca imaginei esse negócio de dor de amor fosse tão feroz e insistente. Derramei lágrimas que nem imaginava que existiam em mim. Acabei parando de olhar a lua e de procurar estrelas. Entrei no automático, perdi a sensibilidade.
Com o tempo, a confusão passou e a dor se foi. Mas ainda ontem tive um choque de realidade. Meses depois e por um acaso, precisei voltar ao meu antigo endereço e então, no mesmo horário de antigamente, peguei a Rua B. A noite estava fria, era começo do inverno, chovia e eu estava sem guarda-chuva, o vento parecia estar disposto a cortar a pele da minha face. Quanto mais andava, mais meu destino parecia se afastar de mim.
Eu já não sabia o que estava mais mudado, se era o clima, a rua ou eu.
Cheguei no portão de casa exausto, tremendo de frio e sentindo que faltava um pedaço de mim. A madrugada que se iniciava suspirava nostalgia e tristeza... Olhei para trás e observei a rua e toda sua extensão, parecia mais triste do que nunca. Já não tinha nada daquela alegria com a qual eu andava antes, parecia até mais escura, mais sombria.
O pior era saber que quem eu amei nunca esteve ali comigo, mas era como se estivesse em todos os lugares, em cada detalhe, como se ocupasse todos os espaços. Como se fosse a própria rua! Era como se me observasse e me ignorasse. Por um momento, quase acreditei que o espírito inconformado e triste do caminho para o cemitério havia me pegado, mas acabei vendo que aquilo não passava de mais uma prova de que a tristeza embaça nossa visão.
Sacudi a cabeça para espantar os pensamentos confusos e abri o portão. Antes de entrar, olhei novamente para trás e senti a rua só mais uma vez, guardei aquela imagem em minha mente, como uma fotografia. Queria me recordar bem daquela sensação porque, certamente, aquela seria para sempre a rua da melancolia.


Diogo Souza,

25 de abril de 2015, Simão Dias.

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