21 de março de 2016

Um Cara da Hora | Crônica





O Sol das 13 horas castigava o sertão sergipano naquela tarde de domingo, o feriado estava quase acabando e aos poucos as pessoas começavam a voltar para suas casas e rotinas. Eu fazia o mesmo, pois na segunda trabalhava às 8 horas e precisava estar descansado para enfrentar mais uma semana de trabalho e estudos. O ônibus era o mesmo dos outros domingos, as pessoas eram diferentes, mas o clima de despedida era exatamente o mesmo.
Eu já estava há quase 40 minutos na estrada quando um senhor subiu e sentou ao meu lado. Assim que o fez, senti o cheiro de álcool e já fiquei apreensivo, pois tenho um histórico preocupante de bêbados que nunca vi na vida, me conhecerem e me considerarem amigos íntimos. Seria engraçado se um dia um destes não estivesse armado e dizendo que queria que eu testemunhasse para que ele não voltasse para “lá”.  O pior é que, assim como outros ébrios já fizeram, este estava inquieto, me olhando e aparentemente com muita vontade de conversar sobre qualquer coisa.
Meus fones de ouvido sempre serviram como uma plaquinha de “não perturbe”, mas nem todos sabem ler isso. “Será que já tem gente morando?”, perguntou ele, fazendo-me tirar os fones no exato momento em que Michael Jackson cantava “We must live each day/ Like it’s the last“ (Nós devemos viver cada dia/ como se fosse o último). Olhei pela janela e vi que o conjunto habitacional em construção já estava bem adiantado, algo que eu não tinha reparado, mesmo passando por lá quase todas as semanas.
“Essa cidade mudou muito desde que eu fui embora,” disse ele.
“Há quanto tempo o senhor ficou sem vir aqui?” perguntei.
“Próximo dia 23 vão fazer 50 anos que estive aqui pela última vez, foi quando fui para São Paulo”.
Pronto, senta que lá vem história, pensei comigo mesmo. Desliguei o player do celular e comecei a ouvir o que dizia. Ele foi logo dizendo que era muito jovem quando foi embora de Simão Dias, tanto que nem conhecia a maioria dos parentes que reencontrou naquele domingo quente e animado.
“Você sabe quantas latas de cerveja eu bebi hoje?” perguntou, olhando-me com ar desafiador.
“Muitas?” respondi deduzindo pelo seu cheiro.
“Dezesseis, cara!”
Ele começou a rir, fiquei surpreso com a quantidade de bebida que havia ingerido, mas ele garantiu que beberia bem mais. Só iria para o pequeno apartamento que alugou em Lagarto para tomar um banho e depois iria sacar dinheiro num cash para curtir o domingo.
“Qual a sua graça?” me indagou depois de um rápido silêncio.
“O quê?” realmente, eu não tinha escutado.
“Qual seu nome?”
“Diogo.”
“Jonh?”
“Di-o-go.”
“Ah, sim” ‘Djiogo.” Ele forçou a marca do sotaque na pronúncia do D. “Porque não fala como o pessoal daqui, DI-O-GO?”
 “Não consigo.”
Então ele disse que meu sotaque não parecia de Sergipe, então refletiu e disse que não era de lugar nenhum, mas ao mesmo tempo era de todos os lugares.
“Que loucura, Diogão!”
Ri pra caramba, o cara era uma figura. Perguntei seu nome e ele fez um gesto com a mão para que eu esperasse. Esperei.
“Meu nome é Zé”.
“O mesmo nome do pai”, eu disse.
“Mas não sou um José qualquer”.
Tirou a carteira do bolso da bermuda jeans e procurou alguma coisa, então sacou a carteira de habilitação e me entregou, dizendo que eu deveria ver com meus próprios olhos. Peguei o documento e procurei por seu nome e lá estava ele: José da Hora. Assim que vi, ri e devolvi o documento para ele.
“Viu, só? Sou o José da Hora”.
Da ora”, brinquei e ele estourou uma gargalhada enorme, acho que aquela foi a maior que eu já ouvi na vida.
Ele continuou falando e falando. Disse que trabalhou como motorista de ônibus por três décadas, trinta anos cruzando o Brasil. Quando finalmente se aposentou, não tinha pra mais onde ir. Então decidiu que não iria enlouquecer e resolveu voltar a viajar, porém não seria mais como motorista e sim como turista parar poder viver, curtir e amar. Porque agora, perto de seus 70 anos, se sentia mais vivo do que nunca.
De repente, ele parou e ficou em silêncio. Então perguntei se ele tinha família em São Paulo e ele disse que sim. Dois filhos e a ex-esposa.
“Minha ex-mulher, Diogão, levou tudo de mim, levou o carro, a casa e meus dois filhos. Eu rezo todo dia por ela, mas ela ainda me roga pragas, acredita? Eu não desejo mal para ninguém, nem mesmo pra ela.”
“O bem ou o mal que fazemos sempre volta pra gente,” comentei.
“Verdade, Diogão! Você é um carinha legal, sabia? Gostei muito de você, continue assim com essa humildade! Não é qualquer um garotão da sua idade que tem paciência pra aguentar um velho bêbado como eu. Muito obrigado mesmo.”
Chegamos na cidade de Lagarto, era ali que Zé Da Hora iria descer, e ele desceu muito animado me desejando bênçãos e muito sucesso na vida.  Fiquei feliz por sua alegria e tomei uma injeção de ânimo naquela tarde que me ajudou muito durante toda a semana. Eu apenas observava enquanto ele se afastava, até de longe dava para ver que ele estava vivendo intensamente cada momento da vida que ainda lhe era de direito. Realmente, aquele era um cara “da hora”.

Diogo Souza,
15 de março de 2015

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