1 de fevereiro de 2016

Na estrada | Conto | Cara do Espelho





“(...) a zoeira que eles faziam ecoava pelas planícies,
recobrindo por completo aquele mundo descolorido no qual eles viviam.”
(Jack Kerouac – On The Road)


Ladeira abaixo, seguimos madrugada adentro, sem mais propósitos e com apenas outra proposta insana de futuro em mãos. O cheiro pantanoso ficava cada vez mais forte à medida que nos aproximávamos do grande rio. O ar puro invadia nossos pulmões e ia recarregando as energias naquela madrugada desertora. Éramos duas almas vagando na mais vagabunda das noites, buscando qualquer motivo novo para sorrir, seguir adiante e se mexer. Mexendo e mexendo no ritmo dos acordes espanhóis que aprendemos com um mendigo filósofo louco que conhecemos na última cidade por onde passamos.
“Ah, isso sim é que é dançar”, repetia enquanto mordia minha orelha.
Liguei o rádio e captei uma frequência de rádio pirata, na qual um locutor fora da lei fazia um discurso revolucionário e romântico em plena madrugada no meio do nada. Palavras como aquelas jamais seriam ouvidas nas rádios tradicionais – e alienantes, como ele acertadamente devia pensar. Talvez fôssemos sua única audiência.
“Porque a vida é isso”, dizia ele, tomado por enorme excitação, “uma eterna página em branco a ser escrita, desenhada e rabiscada; é um novo livro na cabeceira da cama pronto para ser lido ou trocado. A vida é puramente uma seleção aleatória de histórias loucas de amor e amizade”.
Buzinamos e paramos para um louco na estrada, mas ele não aceitou a carona porque disse que não ia a lugar nenhum e seguimos ao som da rádio pirata. Olhava pelo retrovisor tudo que ficava para trás e pensava na vida. Eu que sempre tive milhares de teorias do que era certo e errado, já não tinha medo das páginas em branco e das mudanças. Rasguei minhas agendas e meus roteiros. Derrubei minhas fachadas. Sorri pro céu e gritei bem alto: “Aleluia, irmão!”
Acelerei e não posso mais parar!
Eu não sei bem se acredito nessa história de alma-gêmea, mas de todas que já tive no último ano, essa é a mais louca e a mais verdadeira. Não sei no que isso vai dar, onde essa viagem vai parar e nem mesmo o que eu serei daqui um ano – aliás, não sei nem o que serei amanhã. Cruzamos as últimas fronteiras que nos prendiam aos nossos enigmáticos passados e entramos numa nova estrada, agora sob a luz do Sol nascente, um amanhecer espetacular.
“As essências destas duas almas viajantes foram irremediavelmente misturadas. Oh, sim... sim, ouvintes! Elas foram fundidas para todo o sempre e agora não há cristão capaz de fazê-los parar. E que não se atrevam!”, gritava o locutor doidão antes de perdemos a frequência da rádio e o deixarmos para trás, assim como todo o resto.

Diogo Souza, 13 de julho de 2015, às 00h:47min.

(Ao som de Bruno Mars – Uptown Funk)

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