3 de dezembro de 2014

Esquece! Esquecer deveria ser mais fácil | Crônicas



É domingo e o Cara do Espelho está de volta com mais um texto inédito. Desta vez, trago uma crônica que fiz num daqueles momentos de inspiração: eu estava com gripe e com insônia na madrugada do dia 01 de novembro. Tive que levantar da cama e escrever, porque quando o texto pede pra sair, quem sou eu pra segurar?
A ironia é que o título do texto é "Esquece" e eu já ia esquecendo de publicar.

A ilustração do post é uma foto tirada pela minha amiga Juliane Barbosa (palmas pra ela).

O texto vai ao som da música que ecoava sem motivo em minha cabeça: “Memória da Pele”, de João Bosco. 



Esquece

 
Juliane Barbosa (2014)

Eu não domino a arte de esquecer, pois tudo o que vejo, faço, ouço ou sinto está impregnado por alguma presença (ou ausência) constante e implacável de alguma coisa que ficou no passado. Nem entendo o meu espanto, sempre me vangloriei por ter uma excelente memória, de lembrar coisas das quais ninguém mais lembrava e de ser do tipo de pessoa que guarda os mínimos detalhes para “eternizar os momentos” – engrandece-los, revivê-los e escrevê-los (coisa de escritor).

O problema é que agora eu só queria esquecer, mas eu guardei todos os detalhes e agora eles estão por toda a parte me fazendo perder tempo e energia com o esforço de tentar apagar as lembranças e deixar tudo isso para lá. Puro fracasso, tentar esquecer é lembrar duas vezes, reforçar a imagem, fazer doer.

Esquecer deveria ser mais fácil, deveria ser algo automático, um simples comando consciente. Bastaria “excluir histórico”, mas a realidade não é assim e não posso me esquecer disso. Esqueça isso de tentar esquecer, ninguém nunca me ensinou a fazer isso. Esqueça as palavras derramadas e as lágrimas faladas. Esqueça que precisa esquecer, talvez seja necessário lembrar. Talvez esquecer não seja necessariamente esquecer, mas sim simplesmente não lembrar. Alguém já deve ter dito isso.
Esquece.

O problema é sentir o coração apertado e lembrar de que ainda não foi capaz de esquecer.

– O quê?

Esquece, eu não vou dizer de novo, já doeu dizer uma vez pra você querer que eu repita.

– Por quê?

Esquece o que eu disse! Esqueci de que não sou um bom exemplo.

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