31 de agosto de 2014

E se minha cachorra falasse


Voltei no período eleitoral para cumprir promessas feitas.

O texto da semana é fruto de pura falta do que fazer. Estava eu em casa quando vi minha cachorra, Lesse (que nome original, você deve ter pensado), e comecei a imaginar como seriam as coisas do ponto de vista dela. Como seria sua história e seu linguajar.

Pois bem, no dia 18 de julho eu escrevi este conto com a seguinte pergunta na cabeça:

(Ao som de Leave me alone, de Michael Jackson)


E SE MINHA CACHORRA FALASSE

 
Filhote de Lesse de 2011, ela não gosta de fotos
Oi, meu nome é Lesse, pelo menos é como todos por aqui me chamam, na realidade meu nome é Kédelain, era assim que minha mãezinha me chamava. Meus antepassados vieram para o Brasil há milhares de séculos (no calendário canino), eles eram franceses e foram tragos por uma família de aristocratas portugueses que vieram para cá para entrar no mercado açucareiro do então Brasil Colônia. Minha tatara(etc)avó se chamava Madame Sartre era casada com o Lorde Frederick, eram de uma linhagem pura e nobre.
No Brasil, o casamento deles sofreu uma grave crise pois Madame Sartre conheceu o Duque, que de nobre só tinha o nome, ele era mesmo um vira-latas, era escravo do engenho. Eles tiveram um caso que foi um grande escândalo na sociedade dos cachorros fidalgos. Quando o Lorde descobriu, mandou Jubileu, o pastor alemão da fazenda, dar uma surra no escravo. Duque lutou bravamente, mas ainda assim teve que fugir de lá.
Algum tempo depois, minha tatara(etc)avó deu à luz a cinco filhotes, todos nasceram iguais a ela, mas isso não impediu que todos comentassem que eram filhos do vira-latas Duque e que, desta maneira, ela teria colocado fim a "pureza" de raça que foi preservada por séculos. Se aqueles filhotes eram de raça pura ou não, nunca se soube ao certo, mas foi assim que minha família se estabeleceu no Brasil, pelo menos é o que reza a lenda.
É por causa desta história também, que as cadelas da cidade vivem dizendo que não tenho pedigree, que sou uma vira-latas tanto quanto o Rex, o pulguento que vive aqui no sítio. Mas, quer saber? Pouco me importa se tenho ou não pedigree, não sou como as outras poodles que são cheias de frescurinhas e que vivem falando mal da vida dos outros.
Se isso for ter pedigree prefiro ser uma vira-latas!
Minha tatara (sei lá o quê) avó estava certa em trair o tal lorde, porque os poodles machos são um bando de pé no saco. Detesto quando o primo Bolinha vem aqui no sítio, ele morre de medo de tudo, não gosta de caminhar por aí nem nada, só quer ficar lá com os humanos dele. As primas Lulu e Fadinha são piores, quando vem aqui é inferno, já chegam com aquelas roupas, cheias de lacinhos na cabeça...
Mano, aquilo é tão ridículo!
Vem pra cá e ficam me enchendo o saco, falando de passeios, petshops e fofocas, eu não tenho paciência. Eu não sou assim. Prefiro mesmo sair por ai sem correntes, correr atrás daqueles gatos insolentes, tomar banho de rio e até mesmo conversar com o lerdo do Rex, pelo menos a gente se entende. Gosto dessa simplicidade, não troco nada disso por aquelas frescuras que minhas primas vivem ostentando por aí. Garanto que se o Malandro, o gato que anda por aqui, chegasse perto daquelas duas elas morreriam de medo, porque aquele gato é danado, é esperto e mete medo, mas não tanto quanto eu, claro.
Bom, agora vou sair. Meus humanos já acordaram e vão abrir a porta para eu poder sair, hoje o dia vai ser longo. Ah, preciso me lembrar de cobrar o meu osso a Lalinha, minha vizinha, ela ficou de me arrumar um bem grande hoje, só espero que ela cumpra o prometido pois ela tem mania de “esquecer”, mas ela não me engana.

 

Diogo Souza, 18 de julho de 2014






 
E se seu animal de estimação falasse, o que você acha que ele diria? Comenta aí! J

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poesias no Espelho

Postagem em destaque

A grandiosidade de se sentir pequeno | Crônica | Cara do Espelho

Vou me pendurar no lustre, no lustre Vou viver como se não houvesse amanhã (Sia – Chandelier) Você já olhou para o céu numa...