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17 de agosto de 2014

O fim da rua | Conto



Quando desci as escadas de sua casa e voltei pra rua senti um misto de alegria e desolação. De repente, as correntes não existiam mais e, por outro lado, era hora de seguir em frente e, talvez o mais complicado, encontrar uma nova direção. Parado, olhei para o fim da longa rua, estava claro que o horizonte estava lá, eu que nunca o levei a sério a ponto de segui-lo, estava tão cômodo em ter esta rua como ponto de encontro e refúgio que acabei esquecendo que a vida nos dá infinitas oportunidades de trilhas.

Uma leve chuva começou a cair e o vento frio tocou meu rosto sem muita delicadeza. Sei que a saudade faz estragos e que ela vai me torturar em dias melancólicos, mas quando tudo se acaba só há uma solução: começar de novo. Atrás de mim deixo a desilusão e a mágoa, que fique tudo para trás e que a dor diminua e um dia eu ainda possa pensar nisso como um lembrança especial, como tantas outras que tenho comigo.

Um homem apressado esbarrou em mim, saí do meio da calçada e continuei com o olhar direcionado ao fim da rua, mas com o foco mais perto, percebendo os chuviscos que caíam de forma dançante bem à frente da ponta do meu nariz.

Sei que você está aí atrás, olhando pela cortina e se perguntando o que ainda faço parado em frente à sua casa. Acho que estou deixando aqui o que precisa ser deixado, estou descarregando as emoções desnecessárias e tentando dizer ao meu coração que isso acabou faz tempo e que é hora de seguir em frente.

Parecia distante, mas era perto, uma senhorinha falava comigo bem baixinho:

“Está com algum problema, moço?”

Depois de algum esforço voltei a realidade e olhei a doce velhinha que segurava o guarda-chuva sobre minha cabeça me protegendo da chuva.

“O quê?” perguntei ainda atordoado.

“Você está se sentindo bem, rapaz? Está há um tempão aí parado na chuva.”

“Ah sim... Sim, estou me sentindo bem. Estou me sentindo muito bem. Obrigado.”

“Que bom, mas não fique tão pensativo assim na rua, é perigoso.”

Eu ri para ela e me ofereci para levar suas sacolas, ela negou, mas aceitou que eu levasse seu guarda-chuva, pois me disse que manter o braço erguido doía. A casa dela era do outro lado, justamente no começo da rua. No caminho ela me contou sobre como gostava daquele lugar e a saudade que tinha dos netos. Ao chegarmos em seu portão, nos despedimos e finalmente fui embora dali, estranhamente feliz e aliviado.

Diogo Souza, 18 de julho de 2014

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