13 de junho de 2016

E se as baleias voassem? | Mais lido | Cara do Espelho



Publicado originalmente em 20 de julho de 2016

Minha patroa estava bem diferente do que costumava ser, pois antes se arrumava, se emperuava e mandava preparar o carro para passeios com as amigas. Hoje tem saído de casa descabelada, de cara lavada, com roupas sem cor, chinelos de dedo e cara emburrada. Hoje me pediu para levá-la a maior ponte da cidade porque queria olhar a foz do rio. Fiquei com medo de estar querendo se matar e tentei convencê-la a não ir, já que estava nublado e parecia que ia chover, mas ela estava realmente decidida e me fez pegar o carro e acompanhá-la.

Lá em cima, depois de um tempo fumando e olhando o encontro do rio com mar que acontecia poucos quilômetros dali, ela sacou um lenço de papel do bolso do casaco, cuspiu e envolveu seu cigarro nele e o apagou. Depois jogou o embrulho nojento do alto da ponte.

“Não me olhe com essa cara, Poseidon. Joguei um cigarrinho só... e essa cidade que joga todo seu esgoto em você? Você nem diz nada, né? Fica na sua, irmão.”

Com quem ela falava? Quem diabo era esse Poseidon? Seria outra crise nervosa? Depois, ela me falou que era o deus grego das águas, acho que o marido de Iemanjá.

O fato era que minha patroa estava num dia difícil. O motivo? Ela acordou e decidiu que este seria um dia difícil, mais um em sua biografia. Havia muito trabalho com o prazo em cima, mas ela nem se demonstrava preocupada e dizia que precisava sair, caminhar e espairecer para espantar a falta de disposição.

Acho que isso não estava funcionando, pois já havíamos rodado meia cidade nesses últimos dias e nada de ela “despertar para a vida”. Muito pelo contrário, quando soube que o marido já estava com outra – e esta uma jovem loira, peituda, bunduda e pernuda – se abateu muito, talvez porque isto significasse o fim oficial de suas últimas expectativas e ilusões sobre uma possível reconciliação.

No entanto, naquele momento, depois de longas semanas tenebrosas, eu a vi sorrir pela primeira vez. No alto da ponte mais alta da cidade, sobre a foz do maior rio que por lá passava, ela olhou o balanço das águas agitadas pela maré e sorriu. Sorriu primeiro apenas com os lábios finos e ressecados, depois sorriu por inteiro, de corpo e alma, entrando numa inexplicável crise de riso.

“Perdão, mas do que a senhora ri?”

“Zeca, já pensou se uma baleia surgisse aqui no rio?”

“Uma baleia, senhora? Num rio?!”

“É, Zeca, aqueles bichos gordos e enormes que nadam pelos mares cantando suas infindáveis canções de amor e de ninar. Quer dizer, vai saber, né?  Talvez elas tenham até canções populares – OS HITS DA TEMPORADA DE REPRODUÇÃO – que falam de carros, vadias, bebidas e ostentação. Não... não mesmo. As baleias não são assim, não são tão vazias quanto os humanos. Aliás, o vazio dos homens é do tamanho de uma baleia.”

“Nem todos são assim.”

“As baleias têm coração, e como tem! Você sabia que o coração de uma baleia-azul pode pesar 600 Kg? É o maior coração entre os seres vivos. Mas os humanos não se importam muito com isso, muito menos os machos. Talvez por inveja, o pênis de uma baleia cinzenta mede aproximadamente 3 metros!”

“Do que a senhora está falando?”

“DE BALEIAS, seu lerdo! Já pensou se as baleias voassem?”

“Hein?”

“E quando uma, cansada de voar, mergulhasse de volta pra água e criasse uma onda tão grande que sacudisse as canoas e barcos ali? E, se depois, batesse a enorme cauda perto dos barcos dos pescadores até fazê-los recolherem suas redes da morte e irem embora? Essas baleias são demais.”

Ela continuava a rir das imagens e situações que lhe surgiam na mente. A princípio, pensei que estivesse ficando louca de vez ou que tivesse trocado de cigarro de novo, mas depois percebi que ela estava apenas procurando um novo jeito de olhar as coisas. Não sei como explicar, é como se estivesse procurando olhar a vida de uma forma diferente, procurando uma paisagem que lhe parecesse mais bonita e mais feliz. Criando um novo mundo capaz de oferecer os estímulos positivos de que tanto precisa neste momento.

E ela tem razão, essas baleias são demais.

Diogo Souza, em 11 de julho de 2014


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