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8 de junho de 2014

Talvez Amanhã

Talvez amanhã




Para ler ao som de Stranger in Moscow (Michael Jackson)
Quarenta e cinco metros o separam do chão, do gran finale. Há quanto tempo estava às voltas com aquela hipótese? Tão tenebrosa que, só de ser (in)conscientemente cogitada, levava-o para debaixo do chuveiro, da água fria e na tentativa insana de afogar as angústias, ou apenas sufocá-las por alguns momentos.
A água que corria o corpo, inundava os olhos secos e desmanchava os resquícios da dignidade que forjava para si. Água que anestesiava, causava tonturas, pontadas. Os ombros curvados, olhos perdidos, cabeça pesada, e a mente insurportavelmente pesada. Peso demais.
Saía do banho e, ainda molhado e despido de emoções, jogava-se na cama, a maldita e imensa cama vazia. Sentia vazio. Sentia-se vazio. Sentia frio. Sentia-se frio. Sentia-se meio morto, não meio vivo, apenas meio morto. Não sentia mais nada. Morria por dentro.
Nos últimos 68 dias, ao entardecer, subira ao terraço do prédio público onde trabalhava e ali encarava o pôr do sol. Não achava o crepúsculo bonito, achava-o triste, somente. Fim do expediente, fim do dia, fim da luz, fim da vida.
O pôr do sol é uma morte que se repete diariamente, o Sol morre diante de nós durante 365 dias ao ano, às vezes 366. Porém, não nos damos conta de sua partida, não nos importamos. O Sol morre ali: sozinho, aos poucos, esquecido.
Quarenta e cinco metros o separam de seu próprio pôr do sol. Frio, sem luz, sozinho, vazio, lento. Já são 68 dias de indecisão. Olha o chão, espera o Sol morrer mais uma vez.
Talvez amanhã finalmente se decidisse. Mas, (in)conscientemente, talvez ainda se agarrasse à certeza de que o Sol renasce todos os dias. Talvez um dia renasça também. Talvez um dia se jogue.
Talvez amanhã.

Diogo Souza,
18 de março de 2014 23h:55min

2 comentários:

  1. É lendo textos como esse que eu me pergunto POR QUE você ainda não se considera um bom escrito, porque velho... na boa.
    Está maravilhoso, simplesmente! Com emoção e mistério que prende o leitor e deixa com aquele gostinho de quero mais, nossa! Continue assim e volte a postar com frequencia, seu (vagabundo) preguiçoso!

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  2. Aaaaannnnn, minha rainha do milho! Obrigado por suas palavras e elogios, isso é muito importante para mim (é clichê mesmo!). Eu confesso que preciso deixar de ser VAGABUNDO em relação ao blog ( e a tudo também), vou voltar aos poucos, prometo.
    E antes que eu esqueça... Casa comigo? s2

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